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10.1.13

Crítica: A Vida dos Outros


A VIDA DOS OUTROS
Das Leben der Anderen 

Alemanha, 2006 - 134 min.
Drama

Direção: 
Florian Henckel von Donnersmarck

Roteiro: 
Florian Henckel von Donnersmarck

Elenco: 
Ulrich Mühe, Sebastian Koch, Martina Gedeck, Ulrich Tukur, Thomas Thieme

Em cerca de um século, a Alemanha viveu tempos negros. O nazismo foi o mais inesquecível deles, porém, apenas o início de um regime que duraria cerca de 50 anos. De um lado havia a Alemanha ocidental, que possuía governantes sobre a democracia do povo, em outro, oriental, um governo totalitário que sofria com uma influência altíssima da antiga União Soviética, e não muito distante do nazismo em alguns aspectos, o regime oriental controlava rigorosamente a expressão democrática e a concordância com outro regime era considerado crime contra o governo que, rapidamente, encarregava de eliminar o individuo que tentasse persuadir de certa forma a população. Dentre esta tensa relação começa o primeiro longa de Florian Henckel Von Donnesmarck, A Vida dos Outros.

O longa conta a história de Georg Dreyman, um escritor que é considerado uma ameaça pelo governo oriental devido a sua obras consideradas polêmicas e influentes. Mas antes de tomar medidas drásticas sobre o escritor, o governo decide controlar durante um ano toda a vida de Dreyman, através de um monitoramento intensivo feito por Gerd Wiesler, um dos melhores espiões do regime. Conforme o monitoramento vai procedendo, Wiesler começa a viver literalmente as intensidades da vida do escritor e todo o seu calculado e frio método, do qual se orgulha cegamente, começa a desmoronar e logo se questionar se realmente está do lado certo.

Sabiamente, von Donnesmarck divide o longa em duas narrativas diferentes para que, em contrapartida, faça que o telespectador viva as emoções sentidas por Wiesler e George, respectivamente. Do primeiro ato ao meio do segundo, seguimos o espião e desde a primeira cena do longa, o diretor alemão propõe a expôr seu caráter: em um interrogatório, o agente sem conseguir qualquer informação, começa a torturar o homem interrogado com uma arma letal, porém, imperceptível a maioria das pessoas... o tempo. A paciência de Wiesler chega a causar pavor até mesmo nos próprios governantes. Já aposentado da espionagem, se torna professor e conta meticulosa e orgulhosamente seus métodos aos alunos. Durante o mesmo interrogatório que acompanhamos e que está sendo explicado em aula, um dos alunos questiona o professor após horas do mesmo procedimento: “Nós já estamos a horas escutando a mesma conversa e a mesma história. Qual é o objetivo disso?”. O ex-agente o olha friamente e diz: “Durante todas as horas, o homem contou a mesma história alegando ser inocente. Contou os mesmos detalhes, sem mudar sequer uma vírgula. Uma pessoa inocente ficaria revoltada, tentaria contar a mesma história com outros palavras sem mudar o acontecimento. Um mentiroso tenta manter a calma e conta seguidamente a mesma história sem mudar uma palavra sequer.”. Fato comprovado. Após intensas horas sem conseguir ao menos dormir, o interrogado quase em choque por ser forçado a ficar acordado e sentado enquanto não consegue mais pensar em uma palavra sequer devido à interferência que o cérebro sofre pela pressão e necessidade de dormir, o homem, enfim, acaba contando a verdade. Mostrando intensa frieza e crueldade, Wiesler é o espião ideal para passar um ano escutando a vida de outra pessoa. E Florian somente muda a perspectiva de sua narrativa quando entende a necessidade que o telespectador tem de enxergar o que realmente Georg está passando, para assim então, concluir com muita precisão o terceiro ato. Sacada de gênio.

Composto por um roteiro de diálogos e situações inteligentes, uma fotografia e ambientação excelente, aliado a atores talentosos, em especial, o ótimo Ulrich Mühe que consegue, com uma sutileza, transpor com muita profundamente todos os aspectos e mudanças do caráter e vida de Wiesler, (Uma pena que o ator tenha morrido logo após o longa ter ganhado um Oscar e não ter recebido atenção merecida por seu excepcional desempenho), A Vida dos Outros consegue conduzir o telespectador dentro de uma guerra encoberta sobre um governo doentemente silencioso e preciso ao praticar qualquer atrocidade que fosse necessária para que seu regime não fosse ameaçado. Sobretudo, mostra a integridade de um homem que superou suas próprias alienações e contribuiu para que a tirania, da qual apoiava e contribuía, caísse.

Nota: 9/10

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